Em comemoração ao Dia Mundial do Meio Ambiente, comemorado em 5 de junho, o DIÁRIO DO COMÉRCIO, publicou uma série de reportagens especiais sobre o assunto na última quarta-feira. Eu e Rafael Tomaz fomos responsável pela produção de matérias que abordassem a o papel da indústria e do agronegócio na conservação do meio ambiente, por meio de práticas sustentáveis. Minhas matérias especificamente, trataram sobre crédito de carbono no agronegócio. Especialistas me explicaram que, ao contrário da indústria, a prática ainda não chegou no campo.
Quer saber mais sobre isso? Leia abaixo.
Prática é promissora para o agronegócio e pode ultrapassar no Brasil a casa dos US$ 50 bilhões até 2030 .
Apesar de o mercado de créditos de carbono já ser uma realidade na indústria, no agronegócio a prática ainda não faz parte da rotina. Especialistas acreditam que o segmento é promissor para os negócios, que podem ultrapassar no Brasil a casa dos US$ 50 bilhões até 2030. No entanto, ressaltam que muito ainda precisa ser feito para que ele se transforme em alternativa de renda para os empresários do setor. Em Minas Gerais, as atividades de silvicultura e suinocultura são as mais avançadas nesta área.
De acordo com o engenheiro agrônomo, especialista em integração lavoura-pecuária-floresta e sistemas de plantio direto, Ronaldo Trecenti, no âmbito nacional o uso dos créditos de carbono no campo são apenas projeto. Conforme ele, um ou outro já está sendo executado em termos de plantio florestal, dejetos suínos ou avicultura, por parte de grandes empresas. Mas os pequenos e médios agricultores, mesmo fazendo plantio direto ou integração entre as atividades, ainda não conseguem o crédito.
"As tratativas precisam ser lapidadas, a começar pela medição da quantidade de carbono que é sequestrada do meio ambiente, porque isso varia de acordo com a propriedade, região ou atividade. Além disso, é preciso também estabelecer uma metodologia para que haja maior credibilidade do trabalho, o que gera muita burocracia. O processo precisa ser, ao mesmo tempo, completo, preciso e prático e isso tem dificultado", explica.
Longo prazo - Por isso, ele admite que este cenário, com um mercado estabelecido, somente será possível no longo prazo, entre 20 anos e 50 anos. "Isso ocorrerá também na medida que os serviços ambientais passarem a ser mais demandados e reconhecidos pela sociedade. Precisamos mensurar, quantificar e acreditar que estamos gerando serviço ambiental. Por enquanto, estamos fazendo por fazer. Mas ao passo em que os recursos ambientais forem acabando, vamos valorizar mais quem faz", completa.
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| Crédito de carbono pode gerar US$ 50 bilhões à agropecuária até 2030 |
Mesmo assim, o especialista é otimista e afirma que o país já conta com tecnologias interessantes que trabalham a questão ambiental e reduzem a emissão de gases de efeito estufa. São elas: plantio direto, integração entre lavoura-pecuária-floresta e uso de dejetos animais. Inclusive, algumas em estágio bastante avançado, como plantio direto e fixação biológica de nitrogênio. Mas os demais precisam ser ampliados. "O potencial é enorme", diz.
Ele lembra que o governo federal criou, em 2009, o Programa Agricultura de Baixo Carbono (ABC), com o objetivo de buscar alternativas de baixa emissão de carbono, visando assegurar a adoção de tecnologias que proporcionem a recuperação da capacidade produtiva dos solos, o aumento da produtividade e a redução da emissão de gases.
Metas foram estabelecidas a serem cumpridas até 2020. Entre elas a recuperação de uma área de 15 milhões de hectares de pastagens degradadas; adoção do sistema de integração lavoura-pecuária-floresta em 4 milhões de hectares; ampliação do uso do sistema plantio direto em 8 milhões de hectares; e incremento do plantio de florestas econômicas em 3 milhões de hectares. "O programa caminha, mas caminha devagar. E neste ritmo não será possível cumprir as metas até 2020", alerta.
O secretário-adjunto da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa), Paulo Romano, concorda que as práticas de créditos de carbono no campo ainda são inexpressíveis, exceto por algumas empresas que trabalham de maneira integrada com a indústria. Conforme ele, os destaques na agropecuária de Minas, quando o assunto é crédito de carbono, são a suinocultura e a silvicultura.
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| Em Minas, a atividade de silvicultura é uma das mais avançadas nas negociações de créditos de carbono |
Estímulos - Paulo Romano também destaca que faltam estímulos ao produtor e metodologia de ação. Para ele, este é o principal motivo de o processo estar atrasado no Brasil. "No Estado, o governador até chancelou uma metodologia de indicadores de sustentabilidade em agrossistemas, que permite um pouco dessa dimensão para os serviços ambientais. Mas ainda sem compensações", revela.
Além disso, o secretário-adjunto cita o Bolsa Verde, que apoia a conservação da cobertura vegetal nativa em Minas Gerais, mas admite que o mesmo não tem a dimensão que se pretende atingir quando se fala em emissão de gases do efeito estufa. " um exemplo de que é possível, mas que está longe de atender", admite.
Neste sentido, Paulo Romano reitera que é preciso que as políticas públicas partam das esferas nacional, estadual e municipal, sem muita dependência das decisões internacionais. "Mais do que tudo isso, é preciso difundir a questão para que o agricultor entenda, de uma vez por todas, que com essas práticas ele não está apenas contribuindo para com a biosfera. Antes disso, ele é um beneficiado", conclui.
MARA BIANCHETTI
O crédito de carbono é um certificado eletrônico que é emitido quando há diminuição da emissão desses gases, que contribuem para o aquecimento global. Um crédito de carbono equivale a uma tonelada de dióxido de carbono (CO2) que deixou de ser jogada na atmosfera. Aos outros gases reduzidos são emitidos créditos, utilizando-se uma tabela de equivalência entre cada um dos gases e o CO2.
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| Paulo Romano, da Seapa |
Estes créditos geralmente são comprados por empresas do exterior que, em função do Protocolo de Kyoto, têm metas obrigatórias de redução de emissões de gases de efeito estufa, mas não conseguem atingir o patamar determinado. A compra dos créditos permite que estas nações mantenham ou aumentem suas emissões.
O mercado deste tipo de crédito foi criado em 1997 devido à crescente preocupação com o meio ambiente, que levou os países integrantes da Organização das Nações Unidas (ONU) a assinarem um acordo que estipulasse o controle sobre as emissões de gases que provocam o efeito estufa. O Protocolo de Kyoto determinava que os países desenvolvidos reduzissem, entre 2008 e 2012, suas emissões de gases de efeito estufa em 5,2% relativas a 1990.
No fim do ano passado o compromisso foi renovado até 2020. No entanto, Japão, Rússia, Canadá e Nova Zelândia se recusaram a assiná-lo, porque queriam que países emergentes como Índia, China e Brasil também tivessem metas a cumprir, o que não é previsto pelo documento. Já os EUA nunca aprovou o protocolo. Assim, o grupo comprometido com as metas se reduziu a 36 países, que respondem por 15% do total de emissões em todo o mundo.
E para o cumprimento das metas foram criados mecanismos de flexibilização, já que grande parte dos poluidores não consegue reduzir as emissões sem comprometer a produção industrial e agropecuária, o que impactaria a economia. Neste caso, para o cumprimento das metas, as nações podem comprar créditos de outras que possuam projetos de Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL).
Em Minas, a Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) é responsável pela orientação quanto às práticas sustentáveis. Segundo o gerente de Energia e Mudanças Climáticas da Feam, Felipe Santos de Miranda Nunes, o papel do órgão no processo de aprovação dos projetos de MDL se limita a avaliar a efetividade da contribuição do projeto para o desenvolvimento sustentável da região, criticar e sugerir adaptações, devido às normas mundiais criadas pelo ONU para que as empresas possam participar do projeto. (MB)
Publicada em 05-06-2013
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| Outro importante segmento do agronegócio com perspectivas favoráveis em Minas Gerais é a suinocultura |
Em Minas Gerais, quando o assunto é crédito de carbono é impossível não pensar na Plantar Carbon, empresa do Grupo Plantar, sediada em Belo Horizonte. Ela foi a primeira a investir no projeto de Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) no país, em parceria com o Fundo de Protótipo de Carbono (PCF), do Banco Mundial (Bird). O projeto visa reduzir emissões de gases de efeito estufa por meio da substituição do uso do carvão mineral por biomassa renovável nos processos siderúrgicos.
Entre as ações do projeto estão o reflorestamento de áreas degradadas com florestas plantadas para a produção de carvão vegetal renovável, mitigação de emissões de metano na produção do carvão e utilização do mesmo como agente termorredutor no processo de produção de ferro, em substituição ao coque de carvão mineral. A cada três hectares reflorestados, aproximadamente um hectare de área de preservação natural é mantido.
Conforme o superintendente da Plantar Carbon, Fábio Nogueira de Avelar Marques, o projeto pioneiro permitiu à empresa estabelecer novos plantios de biomassa dentro de um sistema novo de redução de minério de ferro. O plantio começou em 2000 e em 2007, com a maturidade das árvores, a empresa se tornou a primeira no mundo capaz de produzir ferro totalmente baseado no uso de carvão vegetal renovável, com diversos benefícios adicionais ambientais e sociais.
"Se naquela época esse tipo de iniciativa já era importante, imagine agora. As empresas precisam se empenhar agora neste tipo de trabalho. Se deixarem para o futuro correrão risco de a questão passar de oportunidade para ameaça. Principalmente porque um projeto deste tipo tem sua maturação equivalente à de uma árvore e não se faz da noite para o dia", explica.
Outro segmento do agronegócio do Estado com perspectivas favoráveis ao crédito de carbono é a suinocultura, por meio dos dejetos dos animais, que são transformados em biogás. O produtor e diretor da Associação dos Suinocultores do Estado de Minas Gerais (Asemg), João Bosco Martins, explica que o trabalho é feito por meio do processo de fermentação das fezes. No entanto, ele diz que se ela estiver jogada no solo o carbono entra na atmosfera em forma de metano, poluindo o meio ambiente, 17 vezes mais que o gás carbônico.
Por isso, foi criado um processo de fermentação anaeróbica em biodigestores. "As fezes são jogadas dentro do recipiente de plástico enterrado no solo - em cerca de cinco metros - e a fermentação a transforma em gás carbônico que posteriormente pode ser usado como gás carbônico, por exemplo", diz. O volume de dejeto é transformado, gerando crédito de carbono, passível de ser comprado por empresas e países poluidores. (MB)
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